Esporte

Monocultura do futebol ataca o tênis, e técnicos pagam o preço

O Brasil é, historicamente, um país dominado pelo futebol. A paixão pelo esporte atravessa gerações, dita o ritmo da mídia esportiva e concentra grande parte dos investimentos públicos e privados. Essa monocultura do futebol acaba criando um desequilíbrio que impacta diretamente outras modalidades, como o tênis, que luta para manter relevância e formar novos talentos. No meio desse cenário, os técnicos são os primeiros a sentir os efeitos de um ambiente que privilegia apenas a bola nos pés.

A sombra do futebol

Enquanto clubes, federações e patrocinadores disputam espaço no futebol, modalidades como o tênis ficam à margem, com orçamentos reduzidos e pouca visibilidade. A diferença é gritante: enquanto uma base de futebol pode contar com dezenas de campos e centros de treinamento financiados por parcerias milionárias, muitos projetos de tênis sobrevivem com quadras malcuidadas e recursos quase inexistentes.

Para os treinadores, a falta de investimento se traduz em salários baixos, pouca estabilidade profissional e, muitas vezes, a necessidade de acumular funções para manter as contas em dia. É comum ver técnicos que dão aulas em clubes particulares durante o dia e ainda trabalham em projetos sociais à noite, sem o mínimo de apoio estrutural.

Formação de atletas prejudicada

A precariedade não atinge apenas os profissionais, mas também a formação de novos jogadores. Sem técnicos valorizados e sem condições adequadas de trabalho, o tênis brasileiro enfrenta uma escassez de atletas preparados para competir em alto nível internacional. O resultado é visível: após nomes como Gustavo Kuerten e, mais recentemente, Thomaz Bellucci, o país não conseguiu emplacar uma nova geração sólida no circuito profissional.

Segundo especialistas, a ausência de uma política esportiva de longo prazo voltada ao tênis explica parte do problema. O foco excessivo no futebol gera um efeito cascata: menos campeonatos, menos incentivo à prática do esporte nas escolas e, consequentemente, menos oportunidades para que jovens talentos surjam.

Pressão sobre os técnicos

Em um ambiente já fragilizado, os técnicos acabam sendo alvos de cobranças desproporcionais. Espera-se que eles descubram e formem novos “Gugas” com recursos mínimos, enquanto convivem com a constante insegurança de ver projetos fecharem por falta de apoio. Muitos relatam frustração e até abandono da profissão diante da dificuldade de conciliar paixão pelo esporte com a necessidade de sobrevivência financeira.

O contraste com outros países

Em nações onde o tênis é tratado com a mesma importância que outros esportes, o cenário é completamente diferente. Espanha, França e Estados Unidos, por exemplo, possuem políticas públicas de incentivo, centros de treinamento de excelência e valorização da carreira de treinador. Isso explica porque esses países conseguem manter um fluxo constante de atletas competitivos no circuito mundial.

Caminhos possíveis

Para especialistas, a solução passa por uma mudança de mentalidade: o Brasil precisa diversificar seus investimentos esportivos e enxergar que modalidades como o tênis podem ser estratégicas não apenas para a formação de atletas, mas também para a inclusão social e para o desenvolvimento de carreiras profissionais sólidas.

Se a monocultura do futebol continuar dominando todos os espaços, o tênis brasileiro corre o risco de ficar cada vez mais restrito a nichos privilegiados, enquanto os técnicos – elo essencial da cadeia esportiva – continuarão pagando o preço de um sistema que não lhes dá condições de trabalho.

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