Entenda como funcionam os embargos infringentes, recurso usado pela defesa de Bolsonaro
Os embargos infringentes são um dos recursos mais discutidos dentro do sistema judicial brasileiro, especialmente quando envolvem decisões colegiadas que não foram unânimes. O tema voltou ao centro das atenções porque tem sido citado pela defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro como uma possível ferramenta jurídica para tentar reverter condenações ou decisões desfavoráveis em tribunais superiores.
O que são embargos infringentes
Embargos infringentes são um recurso destinado a permitir que uma decisão colegiada — isto é, tomada por mais de um juiz ou desembargador — seja reexaminada quando não há unanimidade entre os julgadores. Em outras palavras, quando ao menos um dos votos diverge do entendimento que prevaleceu, a defesa pode solicitar que a decisão seja revista por um grupo ampliado de magistrados.
Esse mecanismo funciona como uma espécie de segunda análise, focada na divergência existente. Ele pode resultar na confirmação da decisão, em sua modificação parcial ou até mesmo em mudança completa, dependendo da avaliação dos novos julgadores.
Em quais situações o recurso pode ser apresentado
Os embargos infringentes não são um recurso que pode ser apresentado em qualquer processo. Existem regras específicas:
- A decisão precisa ser de órgão colegiado, como câmaras, turmas ou plenários de tribunais.
- A condenação ou decisão desfavorável não pode ter sido unânime; deve haver ao menos um voto divergente que favoreça o réu.
- O recurso precisa ser apresentado dentro do prazo legal e seguir as exigências formais do tribunal.
Esse tipo de recurso é mais comum em tribunais de segunda instância e, em alguns contextos, também pode ser admitido em cortes superiores, dependendo do regimento interno de cada tribunal.
Por que embargos infringentes são considerados importantes
O recurso é visto por muitos juristas como uma garantia adicional contra erros judiciais em decisões que despertam controvérsias entre os próprios julgadores. Quando há divergência interna, presume-se que a matéria não é simples, e dar uma nova oportunidade de análise é considerado um mecanismo de proteção ao devido processo legal.
Além disso, os embargos infringentes funcionam como uma forma de equilibrar entendimentos distintos, permitindo que votos minoritários, mas tecnicamente relevantes, sejam reapreciados.
As limitações dos embargos infringentes
Embora sejam um instrumento importante, os embargos infringentes têm limitações significativas:
- A nova análise não é automática; o tribunal precisa admitir o recurso.
- Mesmo após admitido, a decisão pode ser mantida integralmente.
- Não é um recurso que se aplica a julgamentos individuais, apenas a decisões colegiadas.
- Em alguns tribunais, o uso do recurso é restrito conforme o regimento interno.
- Ele não suspende automaticamente os efeitos da decisão, a menos que o tribunal determine.
Ou seja, apesar de sua relevância, o recurso não garante que o réu será absolvido ou que a decisão será anulada.
Por que o tema envolve Bolsonaro
O interesse da defesa de Jair Bolsonaro em embargos infringentes surge da possibilidade de que, em processos julgados por órgãos colegiados, possa haver votos divergentes favoráveis a ele. Caso isso ocorra, o recurso permitiria a reabertura da discussão, ampliando as chances de reverter ou suavizar uma eventual condenação.
Além do aspecto técnico, o recurso também é estratégico: decisões reexaminadas podem atrasar efeitos práticos, postergar execução de penas e criar margem para novas discussões jurídicas. Em casos de grande repercussão pública e política, essa demora pode ter efeitos indiretos relevantes, como impactos eleitorais ou institucionais.
Um mecanismo que gera debate
A utilização dos embargos infringentes sempre foi alvo de debates. Para alguns especialistas, trata-se de um recurso essencial para garantir segurança jurídica em decisões divididas. Para outros, pode ser interpretado como um mecanismo que prolonga excessivamente processos já analisados por tribunais competentes.
Ainda assim, o recurso permanece previsto e aplicável dentro das regras legais e regimentais, sendo parte legítima da estratégia de defesa de qualquer pessoa — inclusive de figuras públicas envolvidas em processos de alta complexidade.

