Economia

Mesmo com queda nos lucros, Huawei afirma ter superado dependência de tecnologia norte-americana

A gigante chinesa de tecnologia Huawei divulgou resultados financeiros com queda no lucro em seu mais recente balanço, mas o destaque do anúncio veio de sua declaração pública: a empresa afirma que já se considera independente dos Estados Unidos no que diz respeito à sua cadeia de suprimentos e à utilização de tecnologias críticas. A afirmação marca um ponto simbólico em um processo de adaptação que começou há vários anos, após as sanções impostas por autoridades norte-americanas que restringiram severamente o acesso da companhia a chips, softwares e fornecedores ocidentais.

De acordo com os números divulgados, o lucro líquido da Huawei apresentou retração em relação ao mesmo período do ano anterior, reflexo de uma série de fatores que incluem desaceleração econômica global, custos elevados de reestruturação e investimentos pesados em pesquisa e desenvolvimento para contornar as restrições internacionais. Ainda assim, a empresa registrou crescimento moderado na receita, impulsionado principalmente pelos setores de infraestrutura de telecomunicações e soluções para indústrias.

A declaração de independência tecnológica vem em um momento estratégico, não apenas para a Huawei, mas para a própria China, que vê a empresa como um símbolo de resiliência diante da pressão internacional liderada pelos Estados Unidos. Desde que foi incluída em uma lista de entidades restritas pelos EUA — o que impede companhias norte-americanas de fornecerem produtos e serviços à empresa sem autorização especial —, a Huawei precisou reestruturar boa parte de seu modelo de negócios.

A resposta da empresa se deu em múltiplas frentes:

  • Desenvolvimento de chips próprios: A Huawei intensificou os investimentos em sua divisão de semicondutores, mesmo com limitações severas de acesso a tecnologias avançadas de litografia. Por meio da parceria com fabricantes locais e o apoio do governo chinês, conseguiu desenvolver chips que, embora ainda estejam atrás dos padrões de ponta globais, atendem às necessidades dos seus dispositivos e equipamentos de rede.
  • Criação de um ecossistema de software independente: Após perder o acesso ao Android com suporte oficial do Google, a Huawei lançou o HarmonyOS, seu sistema operacional próprio, que já está presente em milhões de dispositivos, incluindo smartphones, tablets, smartwatches e produtos de Internet das Coisas. Além disso, a empresa tem incentivado desenvolvedores a criarem aplicativos nativos para sua plataforma, buscando reduzir a dependência de ecossistemas dominados por empresas dos EUA.
  • Foco em mercados alternativos: Diante das dificuldades de operar em alguns países ocidentais, a Huawei redirecionou sua estratégia comercial para regiões onde encontra menos barreiras, como América Latina, Oriente Médio, África e partes da Ásia. Nessas regiões, a empresa ampliou sua atuação em infraestrutura 5G, serviços corporativos, soluções de energia e computação em nuvem.
  • Expansão em setores além da telefonia: Com a divisão de smartphones enfrentando dificuldades devido à limitação de componentes, a Huawei diversificou seu portfólio com foco em áreas como painéis solares, veículos inteligentes, equipamentos industriais conectados e redes empresariais. Esses novos segmentos têm mostrado potencial de crescimento e compensado parte da perda no mercado de consumo.

Apesar do recuo no lucro, os executivos da Huawei destacaram que o momento é de transição e fortalecimento. A empresa tem mantido um dos maiores orçamentos de pesquisa e desenvolvimento do mundo, o que demonstra seu esforço contínuo para se manter competitiva mesmo sem acesso à tecnologia de ponta do Ocidente. Esse investimento massivo tem garantido avanços em áreas estratégicas como inteligência artificial, conectividade 6G e arquitetura de data centers.

No plano político e geoeconômico, a declaração de independência dos EUA tem peso simbólico. Ela sugere que a Huawei se considera preparada para seguir adiante sem o suporte direto de fornecedores norte-americanos, algo que há poucos anos era considerado improvável, dado o grau de integração global da indústria de tecnologia. Essa autossuficiência é, para Pequim, uma vitória importante em sua meta de alcançar autonomia em setores considerados críticos para a soberania nacional.

Contudo, especialistas alertam que, embora a Huawei tenha dado passos significativos rumo à autonomia, a completa desvinculação de tecnologias desenvolvidas no Ocidente ainda enfrenta barreiras técnicas. O setor de semicondutores, por exemplo, permanece altamente concentrado em algumas empresas que controlam etapas essenciais da fabricação de chips avançados — como a ASML (Holanda), TSMC (Taiwan) e fabricantes de materiais especializados nos EUA e Japão.

Ainda assim, a trajetória da Huawei desde o início das sanções tem sido vista como um estudo de caso global sobre adaptação forçada em meio a disputas geopolíticas. A empresa segue operando sob vigilância internacional, com desafios financeiros e diplomáticos constantes, mas também como exemplo de resistência diante de um sistema global cada vez mais fragmentado.

Enquanto isso, os próximos trimestres serão cruciais para avaliar se a recuperação de receitas em novos setores conseguirá se traduzir em estabilidade de lucros no longo prazo. A autossuficiência declarada pode não significar independência plena em todos os aspectos técnicos, mas marca um novo momento na história da empresa — e, por extensão, na dinâmica do setor tecnológico global.

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