Negociações sobre concessões ferroviárias emperram, e mineradora não consegue concluir entendimento dentro do período previsto
As tratativas entre a mineradora Vale e o governo federal para redefinir os termos das concessões ferroviárias da Estrada de Ferro Carajás (EFC) e da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) não resultaram em um acordo dentro do prazo estabelecido para a repactuação contratual. A ausência de consenso trava temporariamente uma das negociações mais relevantes do setor de infraestrutura logística no país, envolvendo ativos estratégicos para o escoamento de minério de ferro e cargas gerais em regiões cruciais para a economia nacional.
O impasse ocorre após meses de reuniões técnicas, propostas de contrapartidas e revisões de cláusulas, nas quais o governo buscava atualizar os contratos de concessão da Vale à luz de novas diretrizes de política pública e exigências de maior retorno social e econômico. A expectativa era de que a repactuação permitisse uma modernização dos acordos, com ampliação de investimentos em transporte de passageiros, melhoria na malha ferroviária e compartilhamento da infraestrutura com outros operadores.
A proposta central em debate girava em torno da renovação antecipada das concessões, que se encerram nas próximas décadas, mas cuja revisão agora abriria margem para novos investimentos em troca de compromissos mais rígidos de desempenho e ampliação do uso público das ferrovias. O governo defendia a inclusão de cláusulas que garantissem maior integração da malha ferroviária nacional e a priorização do interesse coletivo, enquanto a Vale pleiteava condições mais compatíveis com seus planos de investimento e manutenção do foco em transporte de cargas.
O Ministério dos Transportes confirmou que o prazo previsto para conclusão das negociações expirou sem que as partes chegassem a um entendimento final. A pasta ressaltou, no entanto, que o diálogo permanece aberto e que novas rodadas de negociação poderão ocorrer futuramente, desde que as condições propostas estejam alinhadas aos princípios de eficiência, transparência e interesse público. O governo também reiterou que, enquanto não houver nova definição contratual, os atuais termos das concessões permanecem em vigor.
A Vale, por sua vez, reconheceu o término do prazo sem acordo, mas afirmou que continua comprometida com a operação das ferrovias dentro dos parâmetros legais e com padrões de segurança e qualidade. A empresa reforçou seu interesse em manter um canal de diálogo permanente com as autoridades e manifestou disposição em encontrar uma solução que permita a continuidade de seus planos de longo prazo no setor ferroviário.
As duas ferrovias sob concessão da Vale são fundamentais para a logística brasileira. A Estrada de Ferro Carajás liga o sudeste do Pará ao Maranhão, com grande importância para o transporte de minério de ferro extraído na região de Carajás até o porto de Ponta da Madeira, em São Luís. Já a Estrada de Ferro Vitória a Minas conecta o interior de Minas Gerais ao litoral do Espírito Santo, atendendo tanto ao transporte mineral quanto ao de passageiros — sendo esta uma das poucas linhas de trem de passageiros em operação regular no país.
Um dos pontos sensíveis da negociação envolvia justamente o serviço de transporte de passageiros na EFVM. O governo defendia sua ampliação e modernização, inclusive com maior frequência e melhor infraestrutura para usuários, enquanto a empresa manifestava preocupações sobre a viabilidade econômica da operação e os impactos sobre a logística de carga, que é sua atividade principal.
Outro entrave foi a exigência de abertura parcial da infraestrutura ferroviária para operadores independentes, o chamado “direito de passagem”, que permitiria que outras empresas utilizassem os trilhos da Vale mediante condições técnicas e comerciais definidas por regulamentação. O governo argumenta que essa abertura é fundamental para estimular a concorrência e aumentar a eficiência logística nacional, enquanto a mineradora defende a manutenção do controle sobre a operação para garantir a previsibilidade e segurança de seus fluxos de transporte.
A ausência de acordo até o momento representa um desafio para os planos do governo de fortalecer o sistema ferroviário como alternativa ao transporte rodoviário. A intenção do Executivo é ampliar a participação das ferrovias na matriz logística nacional, tanto para atender à demanda de cargas quanto para oferecer soluções de mobilidade mais sustentáveis e menos poluentes. Sem a repactuação com a Vale, o cronograma de modernização do setor pode sofrer atrasos.
Especialistas avaliam que o impasse reflete a complexidade dos contratos de concessão ferroviária no Brasil, que foram firmados em contextos muito diferentes dos atuais, e agora precisam ser adaptados a novas exigências econômicas, sociais e ambientais. Há consenso de que a renegociação é necessária, mas também de que o equilíbrio entre interesses privados e públicos deve ser cuidadosamente construído para evitar insegurança jurídica e paralisia nos investimentos.
Por ora, os contratos seguem vigentes nos moldes atuais, e o governo deverá avaliar os próximos passos com base na evolução do cenário político, técnico e regulatório. Já a Vale continuará operando suas linhas dentro do que estabelece a legislação, mas a indefinição sobre a renovação pode afetar a programação de investimentos futuros em infraestrutura, manutenção e tecnologia.
O desfecho das tratativas, mesmo temporariamente inconcluso, acende um alerta sobre a urgência de mecanismos mais ágeis e transparentes de renegociação contratual no país, especialmente em setores estratégicos. A expectativa é de que, com maturidade institucional e boa-fé entre as partes, ainda seja possível retomar as conversas e chegar a um novo marco de entendimento que beneficie a economia, a população e a eficiência do transporte nacional.