Para Tarcísio, julgamento de Bolsonaro cabe ao povo, e não aos tribunais — em linha com discurso defendido por Trump
Em mais um episódio que reforça a sintonia entre lideranças conservadoras do Brasil e dos Estados Unidos, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, manifestou-se sobre a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, defendendo que a avaliação sobre sua trajetória política deve ser feita diretamente pela população brasileira. A declaração ecoa recentes posicionamentos adotados por Donald Trump, que em diversas ocasiões se posicionou contra julgamentos institucionais de ex-presidentes, alegando que cabe ao povo decidir o destino de seus líderes por meio do voto.
A fala de Tarcísio surge em um momento de intensas discussões sobre o futuro político de Bolsonaro e possíveis consequências judiciais ligadas à sua atuação durante o mandato. Em vez de endossar as investigações e eventuais punições legais que vêm sendo debatidas em diferentes esferas do sistema judiciário, o governador paulista optou por ressaltar o papel soberano do eleitorado.
Ao sugerir que o julgamento legítimo se dá nas urnas e não nas cortes, Tarcísio reafirma uma linha argumentativa que vem sendo repetida em diversas democracias contemporâneas, especialmente entre líderes que se apresentam como representantes de movimentos antissistema. Essa postura costuma defender que figuras populares devem enfrentar a opinião pública, e não instituições judiciais, especialmente quando o conteúdo das acusações envolve temas politicamente sensíveis.
Esse tipo de narrativa tem repercussões importantes no debate democrático. Por um lado, há quem veja nessa abordagem uma defesa da soberania popular e da legitimidade do processo eleitoral. Por outro, críticos alertam para o risco de relativizar os mecanismos legais e o papel das instituições de controle, fundamentais em qualquer democracia.
No caso brasileiro, a fala de Tarcísio de Freitas também pode ser lida sob a ótica de seu vínculo político com Jair Bolsonaro. Ex-ministro da Infraestrutura no governo federal, Tarcísio é amplamente reconhecido como um dos nomes de confiança do ex-presidente. Desde que assumiu o governo de São Paulo, ele tem buscado equilibrar a imagem de gestor técnico com a manutenção de seu capital político junto à base bolsonarista.
Ao reforçar a ideia de que a responsabilidade de julgar Bolsonaro cabe ao povo, Tarcísio não apenas reproduz um discurso que se tornou frequente entre aliados do ex-presidente, como também consolida sua posição como possível herdeiro político do projeto iniciado em 2018. Essa movimentação discursiva fortalece seu vínculo com o eleitorado conservador, ao mesmo tempo em que o diferencia de outros nomes da direita que preferem adotar posturas mais moderadas diante das investigações em curso.
A comparação com Donald Trump é inevitável. O ex-presidente norte-americano, que também enfrenta acusações na justiça de seu país, frequentemente recorre ao argumento de que está sendo perseguido por forças institucionais com fins políticos, e que sua verdadeira inocência ou culpa deve ser definida nas urnas. A adesão de Tarcísio a essa linha de pensamento aproxima ainda mais os cenários político-eleitorais das duas nações.
Em meio ao avanço de processos e à incerteza sobre a elegibilidade de Bolsonaro nos próximos pleitos, essa defesa pública do julgamento popular adquire contornos estratégicos. Ela sinaliza, para apoiadores e adversários, que figuras influentes no espectro conservador continuam comprometidas com a preservação da imagem política do ex-presidente, mesmo diante das pressões legais.
Essa postura também lança luz sobre o papel que Tarcísio de Freitas pode vir a desempenhar no futuro. Seja como possível candidato nacional ou como voz influente dentro da direita brasileira, ele parece cada vez mais alinhado com uma retórica que prioriza o julgamento popular em detrimento das instâncias judiciais, num movimento que transcende fronteiras e se insere numa tendência global.